Fórum de Inovação e Sustentabilidade na Cadeia de Valor discute resultados do Ciclo 2012

O evento também lançou a primeira publicação do Projeto Inovação e Sustentabilidade na Cadeia de Valor, que destaca casos de pequenas e médias empresas com práticas inovadoras em sustentabilidade na cadeia de valor de grandes empresas 19/10/2012
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Bruno Toledo

“Não discutimos inovação por ser algo moderno, ou mesmo um fator de distinção tecnológica. Inovação é decisiva quando falamos de sustentabilidade, pois viabiliza rumos na transição para um novo padrão de desenvolvimento.” Esta reflexão, trazida por Paulo Branco, do GVces, fundamenta o projeto Inovação e Sustentabilidade na Cadeia de Valor (ISCV), que chegou ao fim de seu primeiro ciclo de trabalho no último dia 16 de outubro com a realização do Fórum de Inovação e Sustentabilidade, no Teatro Raul Cortez da Fecomercio-SP. O evento trouxe casos de pequenas e médias empresas (PMEs) com práticas inovadoras em sustentabilidade na cadeia de valor de grandes empresas, e reuniu representantes de diferentes segmentos para dialogar sobre as oportunidades e desafios da promoção de inovação e sustentabilidade na relação entre fornecedor e grande empresa.

No Fórum também aconteceu o lançamento da primeira publicação do projeto, que apresenta os resultados do Ciclo 2012, sob a temática da gestão de fornecedores, e pela apresentação dos trabalhos previstos para o Ciclo 2013.

Resultados do Ciclo 2012 e publicação

Ao promover a inovação para a sustentabilidade a partir das PMEs que estão na cadeia de valor de grandes empresas, o projeto ISCV apoia o surgimento de "ecossistemas de inovação com foco em sustentabilidade, onde exista a cooperação mesmo durante a competição", de acordo com Paulo Branco, coordenador da iniciativa. "Neste ciclo, nossa proposta foi a construção de um relacionamento mais cooperativo entre as grandes empresas e seus fornecedores de menor porte, indo além do tripé clássico preço-prazo-qualidade, que sempre pautou este relacionamento, e agregando preocupações sociais e ambientais no processo de compra das grandes empresas".

A importância do trabalho está em valorizar a capilaridade das PMEs, que representam a maior parte das empresas operando no país, e a capacidade das grandes empresas de influenciar este universo de PMEs, inclusive no campo da inovação e da sustentabilidade. Neste sentido, as duas primeiras oficinas promovidas pelo projeto tiveram como foco os desafios da construção de uma gestão de fornecedores que fosse voltada para a inovação em sustentabilidade, reunindo as grandes empresas para uma discussão coletiva. Na terceira e última oficina, foi a vez das PMEs apresentarem seu ponto de vista sobre essa questão.

Os resultados deste processo estão organizados na publicação "Inovação e Sustentabilidade na Cadeia de Valor Ciclo 2012 - Gestão de Fornecedores", lançada no Fórum (saiba mais). "A publicação traz um apanhado do que temos na vanguarda da sustentabilidade corporativa e aborda os dilemas, os desafios e as necessidades da questão da sustentabilidade na cadeia de suprimento das empresas", explica Paulo Branco. Além da discussão teórica, a publicação também traz nove casos de práticas inovadoras em sustentabilidade selecionados pela equipe do projeto ao longo de 2012 – Atina Ativos Naturais, Ouro Verde Amazônia, TerpenOil Tecnologia Orgânica, PackLess, RL Higiene, Nord Electric, Brasil Ozônio, Tramppo Gestão Sustentável de Lâmpadas, e Estação Resgate Otimize.

Incentivos

A promoção de práticas inovadoras e sustentáveis na cadeia de valor de grandes empresas ainda enfrenta desafios sérios no contexto da realidade econômica brasileira. Em geral, são poucos os incentivos institucionais para as grandes empresas incorporem inovação e sustentabilidade na gestão de fornecedores, e menos ainda para as PMEs desenvolverem iniciativas inovadoras. "Os tributos são altos, o financiamento é restrito, e o relacionamento com os grandes compradores é frequentemente conflituoso", aponta Paulo Branco.

Além dessas restrições, a inovação em sustentabilidade ainda não consegue se refletir numa definição de preços que a favoreça. "O mercado não comprava a nossa proposta de simplesmente fazer as coisas pelo jeito correto, não se interessava em elementos como a rastreabilidade do nosso produto, mas sim no seu preço", explica Eduardo Roxo, sócio-fundador de uma das PMEs selecionadas como caso do Ciclo 2012, a Atina Ativos Naturais.

A principal iniciativa da empresa é a rastreabilidade e a formalização da cadeia produtiva de alfa-bisabolol de candeia, insumo importante para a indústria farmacêutica e de cosméticos. Como a maior parte da produção ainda é feita de forma ilegal e exploratória, o primeiro grande desafio da Atina foi mostrar o valor da formalização dessa cadeia produtiva para seus clientes, e esta não foi uma tarefa simples para ela, que teve a Natura como uma das primeiras empresas que acreditaram na proposta.

Para Paulo Bellotti, sócio da Pragma Gestão de Patrimônio, os consumidores têm sido uma força relevante para que o mercado incorpore estas externalidades, mas isto ainda é muito incipiente no Brasil. "Precisamos explicitar estas externalidades, deixar claro o custo da não-inovação, e este incentivo está vindo da demanda, que pressiona as empresas para mudar suas relações ao longo da cadeia de valor".

O alcance da inovação

A falta de incentivos também encontra uma dificuldade das empresas encararem a questão da inovação e da sustentabilidade sob uma perspectiva mais estratégica. "É difícil criar sustentabilidade apenas com incrementalismo", argumenta Victor Fernandes, diretor de Ciência & Tecnologia, Ideias e Conceitos da Natura. Para ele, não é possível pensar em sustentabilidade sem pensar em inovação, mas para isso as empresas precisam enxergar valor nessa mudança. "Tudo depende da vontade do empreendedor de querer inovar e de perceber que este processo garante o futuro da empresa, e essa vontade pode facilitar e incentivar o relacionamento corporativo com pequenos fornecedores inovadores".

"Em geral, as grandes empresas têm dificuldade de confiar em uma pequena empresa novata no mercado, e isto se reflete na forma como eles colocam esta preocupação nos critérios de seleção de fornecedores", aponta Eduardo Roxo. Isso evidencia a necessidade de ampliar a competência em matéria de sustentabilidade dos setores de suprimentos corporativos, algo que depende de um compromisso em um nível mais alto, defende Bellotti. "Um ponto fundamental é o entendimento sobre inovação e sustentabilidade na cadeia de valor chegar até a direção financeira da grande empresa". Para ele, é este ator que precisa ser convencido de que a questão da inovação em sustentabilidade não é um custo, mas sim um investimento dentro da empresa – na sua marca, no seu capital humano e no seu capital reputacional.

Novidades para o Ciclo 2013

No segundo ciclo de trabalhos do projeto ISCV, o foco é na jusante da cadeia, tratando especialmente da questão do pós-consumo – desde a gestão de resíduos, passando por logística reversa, ecologia industrial, entre outros temas. O tema da gestão de fornecedores continuará sendo trabalhado dentro do projeto, através de dois grupos de trabalho que visarão o alinhamento dos novos membros do ISCV, a continuidade das propostas levantadas no Ciclo 2012, e a promoção do diálogo sobre os dilemas, desafios e oportunidades nesta questão. Além disso, o projeto contará com uma viagem de aprendizagem, onde os participantes irão à campo entrar em contato direto com os temas.

Fotos: Luiza Xavier (GVces)