Grandes empresas discutem inovação e sustentabilidade com pequenos e médios fornecedores

Oficina abriu o Ciclo 2012 de atividades do projeto Inovação e Sustentabilidade na Cadeia de Valor 18/05/2012
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Bruno Toledo

 
As grandes corporações empresariais brasileiras, que administram e movimentam bilhões de reais anualmente, não passam de 0,15% do universo empresarial do Brasil. Ou seja, a maioria esmagadora das empresas brasileiras é constituída por micros, pequenas e médias organizações, concentradas principalmente no interior do país. Frequentemente, estas empresas acabam servindo como importantes fornecedoras de produtos e de serviços para suas colegas gigantes.
 
Na era da sustentabilidade, um importante desafio para o Brasil tem sido não apenas mobilizar em torno deste assunto as grandes empresas que operam no país, mas também as de menor porte, que geralmente possuem menos conhecimento técnico sobre o tema e menos recursos para adaptação ao cenário da sustentabilidade, em resposta às demandas do mercado. Neste sentido, as grandes empresas possuem, enquanto clientes desses fornecedores de pequeno porte, um importante papel na promoção de ideias e práticas que alinhem inovação e sustentabilidade nas atividades e no planejamento de pequenas e médias empresas (PMEs).
 
A oficina promovida pelo projeto “Inovação e Sustentabilidade na Cadeia de Valor” no último dia 16 de maio deixou clara a relevância que as grandes empresas possuem na mobilização do universo empresarial brasileiro rumo a uma economia sustentável e inovadora, e que as pequenas empresas podem ser celeiros de inovação para o Brasil. Criado no final de 2011, este projeto é promovido pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (GVces) em parceria com o Citi e patrocínio da Citi Foundation, com o propósito de estimular inovação em sustentabilidade entre PMEs inseridas na cadeia de valor de grandes empresas, possibilitando o desenvolvimento de produtos, serviços e modelos de negócio inovadores e sustentáveis, além de melhoria de processos, maior eficiência no uso de recursos e redução de custos e riscos financeiros e socioambientais.
 
Participaram como palestrantes da oficina Paulo Durval Branco, coordenador do Programa Inovação na Criação de Valor (ICV), responsável pelo projeto no GVces; José Guilherme Ribeiro, diretor-superintendente do SEBRAE do Mato Grosso; e Marcelo Ebert Ribeiro, CEO da empresa Terpenoil. Na parte da manhã, os palestrantes discutiram aspectos importantes da promoção de sustentabilidade na cadeia de suprimentos de grandes empresas, e à tarde os participantes foram convidados a refletir sobre o tema, através de debates e dinâmicas em grupo.
 
Sustentabilidade como estratégia corporativa para grandes empresas
 
Para que práticas inovadoras e sustentáveis sejam promovidas dentro da economia brasileira, é necessário o engajamento das grandes empresas em torno desta temática. Isso passa diretamente pela conscientização não apenas da direção da empresa, mas de todos os seus setores. O nível de conscientização acaba refletindo diretamente no envolvimento corporativo em sustentabilidade.
 

"Sustentabilidade corporativa depende de um processo de incorporação do tema na agenda estratégica da empresa", argumenta Paulo Durval Branco. Segundo ele, é possível observar diferentes estágios de envolvimento das empresas neste sentido, desde posturas mais defensivas – onde o ator renega as práticas, os impactos e as responsabilidades corporativas no tema – passando por diferentes tipos de entendimento sobre sustentabilidade, até o momento em que a empresa desempenha uma liderança social, mobilizando outros atores no mercado em torno deste tema. "As organizações no estágio inicial olham sustentabilidade como uma obrigação, se preocupando apenas com custos adicionais relativos a este tema. Nos estágios mais avançados, sustentabilidade acaba se tornando um posicionamento, uma visão, uma oportunidade estratégica para as empresas", define Branco.
 
Para que práticas sustentáveis sejam promovidas junto aos fornecedores de uma grande empresa, o nível de engajamento corporativo é essencial. “As empresas devem refletir sobre suas próprias práticas antes de iniciar uma mobilização em rede, envolvendo seus stakeholders e seus fornecedores”, defende Branco. “É muito comum vermos empresas com discurso proativo em sustentabilidade que não é acompanhado pelas suas práticas, o que para os fornecedores e para os demais públicos de interesse pode parecer esquizofrênico.”
 
Gestão de fornecedores: como fomentar a sustentabilidade na cadeia de valor
 
Uma forma efetiva de disseminar sustentabilidade e inovação é através dos canais de suprimentos das grandes empresas. O esforço de disseminação passa por diversas mudanças no relacionamento entre fornecedores e compradores corporativos. A gestão de fornecedores torna-se assim um instrumento interessante para a promoção de práticas sustentáveis e inovadoras junto a PMEs na cadeia de valor de grandes empresas. "Da mesma forma que pode agregar valor a um produto ou serviço, a cadeia de valor pode também agregar a eles impactos socioambientais. Por exemplo, entre 40% e 60% da pegada de carbono de fabricantes de bens de consumo e de equipamentos de alta tecnologia estão na cadeia de valor do produto", explica Paulo Branco.
 
Para José Guilherme Ribeiro, os pequenos empreendedores brasileiros não possuem conhecimento técnico sobre sustentabilidade, mas na prática acabam incorporando indiretamente este tema em suas atividades. “Quase 60% dos pequenos empresários desconhecem tecnicamente sustentabilidade, só que mais de 70% deles valorizam a questão ambiental em suas operações, e boa parte deles incorpora práticas sustentáveis mesmo ignorando o tema”, explica José Guilherme.
 
Por isso, um ponto fundamental é a capacitação destes fornecedores. “Nos Estados Unidos, os principais responsáveis por inovação são os pequenos empreendimentos, com apoio de seus consumidores corporativos e com financiamento facilitado junto aos grandes bancos”, diz José Guilherme. “No Brasil, a atividade criativa não é incentivada nas pequenas empresas, e o apoio das grandes empresas a elas é bastante limitado”, completa. O apoio das grandes empresas aos seus pequenos fornecedores pode refletir também na promoção de desenvolvimento no interior do país, já que mais de 70% dos pequenos empreendimentos estão concentrados nesta região.
 
Marcelo Ebert concorda com José Guilherme. “É fácil ser inovador e sustentável quando seus clientes também os são, e quando eles valorizam isso em seus fornecedores”, argumenta Marcelo. O caso da Terpenoil foi apresentado na oficina como um exemplo de iniciativa inovadora e sustentável na cadeia de valor de grandes empresas. A empresa produz blends para limpeza em geral com tecnologia nacional de baixo impacto ambiental, atendendo a grandes clientes corporativos. Para Ebert, é importante quando os clientes valorizam esforços inovadores de seus fornecedores e quando isso se alinha às práticas da própria corporação.
 
Outro ponto importante é o desenvolvimento de ferramentas que facilitem tanto o desenvolvimento dos pequenos fornecedores quanto a incorporação de inovação nas atividades destas empresas. José Guilherme cita o exemplo do Centro SEBRAE de Sustentabilidade em Cuiabá, uma iniciativa pioneira na região e no país. “O Centro serve como espaço para que os pequenos empreendedores discutam e conheçam mais sobre sustentabilidade, e para que as grandes empresas mostrem a estas pequenas empresas quais são suas demandas e seus entendimentos sobre sustentabilidade”.
 
Próximos passos
 
Os trabalhos do projeto continuam no próximo dia 04 de julho com a segunda oficina temática, que compartilhará práticas de gestão de fornecedores entre grandes empresas. O projeto também continua com a seleção de PMEs que adotam práticas inovadoras de sustentabilidade em seus negócios.
 
Para participar do processo de seleção, as PMEs podem inscrever seus casos até o dia 10 de Junho através do formulário de submissão disponível no site www.fgv.br/ces/inova. Os casos enviados farão parte da plataforma virtual do projeto Inovação e Sustentabilidade na Cadeia de Valor e passarão por uma seleção realizada por especialistas do GVces. Os seis melhores casos, juntamente com os três que marcaram o início do projeto em dezembro de 2011, serão detalhados em uma publicação a ser lançada no mês de setembro, durante o Fórum de Inovação e Sustentabilidade na Cadeia de Valor.
 
Fotos: Maria Piza e Ricardo Barretto (GVces)